exa 01 by Ed




exa 02


Set Fire to Flames - Fukt Perkusiv/Something About Bad Drugs, Schizophrenics and Grain Silos

(todas as imagens neste blog são da autoria de Edgar Libório, usadas com permissão)

   

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song of my typewriter:

the best way to think is not at all-
my banjo screams in the brush
like a trapped rabbit (do rabbits
scream? never mind: this is an
alcoholic dream);
machine guns, I say,
the altarboys,
the wet nurses,
the fat newsboys,
rubber-lipped delegates
of the precious life;
my banjo screams
sing
sing through the darkened dream,
green grow green,
take gut:
death, at last,
is no headache.

Charles Bukowski, The Days Run Away Like Wild Horses Over The Hills, Ecco/HarperCollins, 1969



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rss feed



 
12.3.12
tenho logo uma luz destas
que merda de imagem, tu e o teu irmão no riozeco da aldeia, tu já com dezassete anos, a roupa molhada, só de cuecas, com a água pelas canelas, as mamas a baloiçar, grandes, redondas, com as veias azuladas à vista, a respirar debaixo da pele branca. catavas carraças de um cão qualquer, encharcado, pedias ajuda ao teu irmão mas ele estava ocupado a tentar perceber porque raio é que as tuas mamas de dezassete anos o faziam sentir assim, com um formigueiro esquisito na cabeça e um calor súbito na dureza da pila.
Posted at 10:11 pm by Cássio Almirante
fala  

 
2.3.12
calendário
nunca escrevi nada sobre pernas da mulher de um amigo e isso é uma falha tremenda. porque já muitas vezes, em casa de um amigo, lhe olhei as pernas à mulher. e são bonitas, as pernas da mulher do meu amigo, mas o meu amigo está na condição de meu amigo e, por isso, não devo referir-me assim às pernas da sua mulher. porque gosto do meu amigo e, mesmo que esteja sozinho, não devo desejar-lhe a mulher. e a mulher do meu amigo às vezes olha-me e, como estou sozinho e a masturbação prolongada me deprime, julgo que com lascívia e interesse. desconheço se a mulher do meu amigo trai o meu amigo com outros homens, ficaria triste pelo meu amigo, e por isso odeio a mulher do meu amigo, porque, como estou sozinho e quero alguém tenho quase a certeza que ela me olha como quem me quer, como quem me deseja, e se faz isso comigo é possível que vá para cama com outros amigos do meu amigo ou colegas de trabalho, sem o meu amigo saber. em certos dias encontro o meu amigo entristecido e a sentir-se mal e sei que é porque sabe que a mulher vai para a cama com amigos dele ou colegas de trabalho, e nesses dias partilhamos um cigarro e não dizemos muitas coisas, porque o meu amigo sabe que eu sei, o meu amigo sabe que, se ele não fosse meu amigo e eu não gostasse dele, também iria para a cama com a sua mulher, porque o meu amigo conhece-me e sabe que estou sozinho e que a masturbação prolongada me deprime.
Posted at 06:48 pm by Cássio Almirante
fala  

 
28.2.12
cu, Munique a São
os joelhos movem-se por si sós ao longo da areia. ouço dizer que a praia não presta. que a praia é para gente feliz, que as únicas alturas para se estar na praia é no inverno, ser-se do contra, tomar-se banhos de mar, bêbado, à noite, com um grupo de amigos, preferencialmente com uma mulher, "uma amiga", uma mulher que ninguém conhece, uma amiga de infância com as melhores mamas do mundo, e hoje somos amigos e uma vez fodemos porque a vida tem destas coisas, mas hoje somos grandes amigos, conversamos e ela percebe-me bem, ela é-me, seja lá o que isso for, digo-lhe "és-me tanto" e olho-lhe para as mamas (e ela existe? convenhamos que sim, para efeitos de diegese) e falo dela a outras pessoas, porque sou um rebelde, sou um outcast, não gosto da praia no verão, isso está visto, "é muita gente", é muito sol, a praia, dizem-me e eu repito porque mo dizem, é boa no frio, vazia, "é como ter uma praia só para mim", cheia de peixes mortos e lixo na rebentação, o mar cinzento, bravo, a pedir-me vidas ou, pelo menos, lixo, beatas de cigarros, mamas lívidas onde assenta o rigor mortis da minha amiga imaginária, com os cabelos castanhos claros, encaracolados, a confundirem-se com as algas com o limo com o plâncton com as redes de pesca velhas e despedaçadas que flutuam junto ao leito do oceano. ou isso ou sermos idosos numa velocidade que mete medo, mete muito medo. tomarmos chazinhos em cafés que dão para a praia, ver o mar, ao entardecer, só ver, ser um espectador do mundo a acontecer, assistir às coisas, ao longe, à alegria dos outros, à angústia dos outros e queixarmo-nos "eu sofro tanto porque nunca fiz nada, estou sempre sozinho" e nunca nos movermos, nunca me mover fisicamente na aproximação da vida dos outros, pensar só "os outros", nunca usar a primeira pessoa do plural porque eu e eles não é a mesma coisa, a praia, no verão, é uma coisa deles, "a praia no verão é para eles e no inverno, à noite, é para mim". mas neste momento exacto/na exactidão deste momento os joelhos movem-se, está sol e areia e mar e cheira a búzios e a cavalos-marinhos, a lapas nas rochas. e dois ou três miúdos com baldes e pás a tentar escavar até ao centro da terra não me deterão de estar aqui. os miúdos não contam. nunca contam. os miúdos ao menos não se deixaram envelhecer cronologicamente dentro dos olhos.
Posted at 11:07 am by Cássio Almirante
fala  

 
22.2.12
tesão do mijo
dói-me o cu e não me lembro porquê. estou a começar a morrer de sida, penso. talvez tenha sido um termómetro, talvez me tenham violado enquanto estava inconsciente, caído no chão da casa de banho do café (lembro-me que a porta não fechava). talvez me tenham violado com um termómetro inconsciente. tremo com medo porque me dói o cu e talvez seja um cancro ou talvez sejam hemorróidas ou outra merda qualquer que me faz doer o cu. é uma impressão no cu, é a porra da impressão no cu e não me lembrar.
irrita-me porque me prometeram uma geração diferente mas ninguém faz poesia como deve ser embora todos a escrevam mais ou menos e nem me interessa nada disso se tenho um desconforto no recto, uma doença na sua génese, na minha cabeça vou morrer amanhã ou depois. prometeram e nem sei quem, ao certo. prometeram-me uma geração de poetas e de princípes mas só vejo pessoas a pender demasiado para um lado ou demasiado para outro. vejo velhos fora de tempo e sinto-me velho mas ao menos mais novo que eles, mesmo que me doa o cu e saiba que estou a morrer disso. provavelmente nem é nada, mas dói-me e sinto-me doente. e sinto-me doente da poesia parada cheia de pó e teias de aranha e lirismos estúpidos. merda para tudo isto que não se soube concretizar. para os filmes que ganham prémios nos festivais europeus. que não servem para nada, são só uma dor no cu, dentro do cu, uma dor tão grande e tão profunda, uma bolsa de ar rarefeito que cheira a enxofre e a coisas superficiais.
a amiga ri-se na sala ao lado, a falar sozinha. não lhe dói o ânus, porque, se doesse, se desconfiasse estar a morrer, ir morrer amanhã, talvez não risse, talvez ainda se preocupasse com a geração imbecil que devia ter sido outra, mas é só esta, de escritores que pensam mas não sentem, que querem mudar o mundo com palavras caras e sinédoques e lírica. eu estou fodido. estou morto. e no entanto são estas coisas que vão ficar daqui a duzentos e trinta anos. não a poesiazinha empoeirada dos meus pares, que me provocam úlceras e dores no cu sempre que escarram palavras com as mãos.
Posted at 12:42 am by Cássio Almirante
fala  

 
17.2.12
bicho-tesoura
Hoje sinto-me. Sinto-me dedos dos pés, posso mover os dedos dos pés mais ou menos como quero. Sinto-me olhos e mãos e dedos das mãos. Mas não me sinto unhas. Vejo-as e estão cravadas nos dedos e sujam-se quando crescem um pouco. Mas as unhas não me são nada. E se parto uma magoa-me apenas porque está espetada no dedo correspondente. As unhas são independentes do resto de mim. Não me sinto unhas. Não me sinto bem.
Posted at 01:18 pm by Cássio Almirante
fala  

 
13.2.12
edema
a senhora doutora é que sabe, eu sou uma leiga, apesar de ter lido uma vez o índice terapêutico de 1985 de princípio ao fim sou uma leiga, não deixo de ser uma leiga, e a senhora doutora é que tem o estetoscópio e é que me passa receitas com essas mãos que me apetecia beijar e que beijaria se não fosse talvez um marido à espera em casa, um marido à espera na minha casa, outro, na sua e se me diz que vou morrer entretanto acredito em si mas ao menos se não for muito incómodo podia-me deixar beijá-la vê-la nua apertar-me contra o calor do seu corpo senhora doutora (conte de dez para trás, sempre esta merda, que porra é de dez para trás?, conte de dez até um, até zero, o zero não existe, é nada, prefiro ficar estendida na marquesa enquanto me mexe nas pernas, nas nádegas, enquanto me apalpa as mamas sob o pretexto "mamografia", que se foda, apalpe-me só as mamas, diga-me que tenho as mamas mais lindas do mundo e que é uma pena, uma lástima "é uma pena, uma lástima, mas, percebe?, tem de ser, a vida são dois dias e o carnaval são três, olhe, pense antes assim", eu nem sequer gosto do carnaval e entretanto já devem ter passado dez segundos, creio eu, de dez até zero, mesmo que eu não os tenha contado, prefiro contar os botões nas batas, nos punhos, prefiro olhar para a máscara, senhora doutora, para a minha máscara, um marido em casa, provavelmente, mas uma máscara sob essa forma, beije-me, antes, diga que me ama, deixe-me abraçá-la, nascer consigo, dentro dos seus sonhos antes de chegar ao seis, ao cinco, ao quatro, adormecer frustrada "porra, nem consegui chegar ao três!")

não quero ter de viver sem si, senhora doutora, já vou durar pouco e sem mamas porque isto são líquidos acumulados, são nuvens, coisas gasosas rente aos músculos mas a liquidificarem-se quando me carrega com os dedos ao pé da pele e as doenças vão mudando de sítio mas o meu amor ocupa sempre o mesmo espaço, a mesma esquizofrenia, e amo-a, quero-a, deixe-me dormir abraçada a si enquanto baba a almofada para que repare que é tão humana quanto eu, que tem a morte à flor da pele, como eu, que os médicos morrem, mesmo que os amemos e os desejemos e que sentem a nossa falta quando temos de morrer e nos dizem que partimos antes da nossa hora.
Posted at 05:31 pm by Cássio Almirante
fala  

 
30.1.12
VIII
dois miúdos nus, nas escadas da casa, a falar de escatologia, a psicologia diz que isso é normal ("é da idade, estão numa fase de fixação anal"), a dizer, a saborear a fonética de "o cocó", "o cagalhão", "a merda", de férias no campo, nus nas escadas da casa, nessa espécie de alpendre, a dizer "a merda" como quem mata um homem em segredo ("matámos um homem, agora não podemos dizer a ninguém!"), "a merda", que terrível sacrilégio, que rebeldia gramatical, a matar formigas e escaravelhos da batata com lupas e papéis de estanho... é preciso irem de férias para o campo para ficarem parados no meio do nada, a falar "o cagalhão" com o prazer de uma heresia, para desmitificarem essa ideia urbana e cinematográfica de que os gatos não descem das árvores, para constatarem as pernas em pânico dos escaravelhos da batata, tão alienígenas, frios, com um sangue esverdeado e uns ossos por fora (uns ossos? uma armadura). os miúdos perdidos nessa mancha gráfica do campo, rindo em demasia enquanto os seixos batem na superfície da água da lagoa, entre o universo das árvores, à noite com medo da língua da casa, das madeiras que rangem, das corujas a caçar roedores atrás da fronteira das janelas, abraçados num amor pré-freudiano (nada pode ser pré-freudiano, estamos no século vinte e um), num amor de poesia antiga, num amor que aquece o corpo a partir de dentro.
Posted at 02:05 am by Cássio Almirante
fala  

 
4.1.12
em cima na' é vinho?
desenhei um cão no teu caderno. não serviu de nada. foi como os beijos que nos fomos oferecendo, como os abraços trocados por entre o frio de sermos humanos hoje. e dei-te discos, livros. para nada. construí nada. dói manter os olhos abertos. ocorrem-me clichés, ocorre-me repetir-me. acho que te amo. acho que te amo. amo-te, uma vez que ninguém sabe realmente o que seja isso, não é? portanto, amo-te e quero dar-te refúgio no meu corpo, nos meus braços, na infertilidade das minhas pernas. já não me queres mais. e pode ser que o meu coração deixe de funcionar entretanto, que saiam só moscas da minha boca, para ti é o mesmo, importa tanto como dizer que te quero, que te amo. não sei porque é que os homens são mais piegas que as mulheres. já andamos nisto há tantos séculos. estamos a compensar alguma coisa. mas dizemos que é biológico, porque temos a ciência para isso, e assim explicamos o inexplicável, com o propósito de sobreviver uns aos outros.
Posted at 07:50 pm by Cássio Almirante
fala  

 
18.8.11
gás propano
ontem à tarde fugi com um caixeiro-viajante e a única coisa que prometemos um ao outro foi vinho tinto de pacote, que não fodíamos quando eu estivesse menstruada. deu para recolher todas as correntes de ar, prevenir as constipações, verificar os manómetros, despejar os sacos de batatas (uma a uma, como pepitas de ouro, como pedaços de platina, para próteses que apitam nos detectores de metal dos aeroportos
"foi-se-me um bocado do cocuruto, senhor, com uma granada, em Angola, já viu? os pretos deixaram-me ali para morrer."
fim de interlúdio)
desligar a caldeira, o disjuntor principal, levar aquela coisa cerâmica dos fusíveis na mala de mão. noutro tempo, logo, noutro espaço, fugi com um caixeiro-viajante, sei lá que porra é um caixeiro-viajante, essas coisas já não são da minha altura, são memórias, palavras que os meus avós diziam e acho que nem eles próprios percebiam o que estavam a querer dizer, "merendeira", "petroleiro", "balança", "ameixoeira". à pressa, muito à continha, ainda dá para enfiar um dicionário, dois ou três livros estrangeiros e uma muda de cuecas na mala, depois trancam-se os gatos na rua, "algum vizinho caridoso há-de dar por eles e alimentá-los, isto é um animal esperto, à fome não hão-de morrer, se for preciso caçam pássaros, roedores, répteis pequenos, besouros, baratas, sei lá, eles vivem, eles aguentam-se, não precisam de mim para nada."
duas ou três nuvens violeta depois, este homem debaixo de uma arcada degradada do sal e do vento, numa cidade quase deserta junto ao mar, habitada maioritariamente pelo cheiro e pela memória de pescadores mortos nos quartos, à janela, com xaropes da tosse e colheres aquecidas no parapeito, é só um projecto de caixeiro-viajante, a dar-me uns trocos para o autocarro ("foi bom enquanto durou, agora cada um vai à sua vida, é assim, há muito peixe no mar, tenho medo de apanhar doenças."), a enfiar-me uns trocos para o autocarro nos bolsos ("não te faças de esquisita, isto não é para te pagar de nada, porra, precisas deste dinheiro mais do que eu!"), levo a mão à testa e volto a lembrar-me daquela ferida de anteontem, ainda está a sangrar, claro, não a lavei nem sequer lhe pus um penso ou uma gaze, valha-me deus, sou tão desatenta!, esqueço-me de que as coisas me doem, que a morte me dói, entretanto penso em desinfectante e em caixeiros-viajantes, desconheço o que seja isso, às tantas precisa mais do dinheiro, do que eu, para pagar o quarto na pensão, um prato de sopa, companhia para estas noites frias (putas, nas noites frias às vezes é preciso uma puta ou outra, nem que seja para ficarem em vigília a fumar cigarros, nuas, num banco, a olhar o chão, o penico alto, de esmalte)...
custa-me a memória disto, a impossibilidade de ver um caranguejo na parede metálica de um sino semi-enterrado a transformar-se numa ferrugem sanguínea, orgânica, vítrea, que fale desses locais como se falasse de sentimentos.
se subir um pouco a saia, se abrir um pouco a blusa, ah!, com que facilidade apanho boleia para outro lado, de cabelo solto e a segurar os sapatos de saltos partidos, descalça queimando os pés neste alcatrão.
Posted at 04:53 am by Cássio Almirante
fala  

 
4.4.11
poejo
tenho isto nas mãos, dói-me como se não soubesse o que é. não sei o que é. doem-me as mãos, há dias em que me doem as mãos como se tivesse matado um coelho, assim, como via matar coelhos quando era pequeno, com um soco na nuca e, depois, o coelho estava morto, deitava morte pelos olhos, às vezes deitava sangue pela boca e pelas orelhas. é como se as minhas mãos olhassem para mim e fossem olhos mortos, os olhos mortos são a coisa que me faz mais impressão, os olhos mortos das pessoas nos caixões, quando estão abertos, e não parece que estão a dormir, ali, abertos, como aquele corpo que encontrei enforcado numa árvore, perto da igreja, preso com as mãos, e os olhos estavam abertos, mortos, não piscavam, pareciam não ter côr nenhuma. a quem já viu olhos mortos abertos isto talvez soe a mentira; é porque é, eu nunca vi olhos mortos, mas dói-me este tempo e vejo olhos mortos, as minhas mãos têm isto, estes olhos, esta inutilidade, esta arte vazia de olhos mortos, esta casa vazia, com móveis a desfazer-se, com bichos prateados a sair de debaixo do que resta dos livros e das listas telefónicas.

a minha mulher nunca percebe nada destas coisas, senta-se ali a ver televisão e deixa que o mundo se apague todo, nem nota a música dos velhos que saem à noite, só fala de como são bonitos e de como estão bem conservados, da roupa que vestem, de como conseguem ainda estar magros e elegantes, sem notar no que devia, e isso é das coisas que me cansam mais, porque eu canso-me sempre, tenho esse dom, o do cansaço, o da desistência antecipada, o de mandar pessoas embora só porque estou cansado delas antes de tempo, para ficar sozinho, cansado de estar sozinho, a olhar para isto, que tenho nas mãos, e que me dói, também porque não sei o que é, é uma engrenagem, ou isso, e os velhos, não os velhos mas a música dos velhos, armazéns de música e de beleza, os pés contra a calçada, as mãos sujas de coelhos mortos, a dor de terem, eles, sim, visto como são, realmente, os olhos dos mortos.
Posted at 11:33 pm by Cássio Almirante
fala  

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