the best way to think is not at all- my banjo screams in the brush like a trapped rabbit (do rabbits scream? never mind: this is an alcoholic dream); machine guns, I say, the altarboys, the wet nurses, the fat newsboys, rubber-lipped delegates of the precious life; my banjo screams sing sing through the darkened dream, green grow green, take gut: death, at last, is no headache.
Charles Bukowski, The Days Run Away Like Wild Horses Over The Hills, Ecco/HarperCollins, 1969
ter saudades, ter ciúmes, ter vontade, ter desejo, ter um bicho semelhante a um deus egípcio, meio homem, meio animal, uma quimera, uma esfinge, uma vírgula, dois pontos, ter fome, ter sede, não querer morrer, ter um texto em inglês para ler, para gravar, estar a criar raízes, fundações no século vinte e um, envelhecer no século vinte e um mas ter vindo de outro sítio.
que fique claro, pois, que dormir não é igual a música das esferas. que um abraço não é como um papo-seco que se partilha quando se tem fome. que um beijo não é uma poesia escura, escondida, e muito menos uma poesia de luzes e de lã em novelo. é o sangue e o sangue por detrás de tudo isto nem sequer é bonito como o vemos nos filmes. é um rio de fins do mundo, com dentes de gato e restos de cabelo, a descer muito devagar por um ralo abaixo.
sabes, vou reduzindo o tamanho dos textos (que insistes em chamar de "poemas") porque a idade não passa de um globo e conforme o atravesso vou perdendo coisas que devia dizer. aprende-se e desaprende-se o amor. mas é de forma mais clara e perceptível a língua que incha e enche a boca com nada. com pus, talvez. enche muito a boca, quando incha. e a linguagem também não serve quando a língua se desocupa da sua função de língua, de órgão que comunica, que molda os sons, os fonemas, as palavras. a minha língua, em particular, foi-se esvaziando da linguagem, foi-se especializando em beijos, em lágrimas, em martelar as paredes da boca quando ouve música. perdeu a anterior capacidade de falar de melros, de dominar as imagens, a retórica, a metáfora, a fina ironia, o sub-reptício. num texto pequeno ainda posso comunicar alguidares de barro e as mãos da minha avó lá dentro a aproveitar a farinha, o fermento, a água, nas tardes de um tempo fechado em vácuo, com os cães a ladrar no quintal e os pássaros a serem pássaros no céu e nos beirais e nas copas nuas das árvores. mas depois de dizer isso não tenho mais nada para dizer. volto a ter de enrolar a língua, de brincar com a língua contra o palato, contra os dentes, contra o vazio da boca quando não beija, não lambe, não respira. volto a ter de pensar no amor e na gramática cada vez mais estranha que envolve o que é o amor aos meus olhos mas também aos olhos dos outros - dos que falam, dos que escrevem, dos que escreveram e já morreram e não podem escrever mais mas que leio na mesma. um texto devem ser olhos e devem ser impressões digitais, mas como só o posso dizer com a língua não o posso dizer de forma conveniente, de forma convincente, sabes? os meus textos vão morrendo comigo porque a língua se perdeu num caminho destes, e ao olhar para trás não a encontro, só casas antigas sem vidros nas janelas, ocupadas por sombras e por melros, só grandes complexos industriais abandonados com crianças a correr pelos escombros e nenhum vestígio de civilização a quem perguntar "ensine-me de novo a poesia".
o ano é 1994. a saia esconde mal as pernas e ao olhar é como se as pernas tivessem muitas abelhas por dentro, mas invisíveis. lá dentro é quente. deus vê sempre isto tudo com outra perspectiva mas aqui de baixo em 1994 é fácil desejar as pernas que se vão vendo no que não é a saia. as pernas todas muito orgânicas aqui em baixo, onde deus vê demais mas sem nunca se apaixonar porque para que se apaixone é preciso ver apenas o que se pode ver, e não tudo. o amor de deus é outra espécie, não envolve sangue nem saliva nem sémen nem sol nem água. seguimos a saia pelos cafés e pelas ruas, seguimos as pernas, as abelhas intangíveis dentro das pernas. isto é 1994, noutro sítio, em 1994, com um tom amarelo e cinzento nas arestas dos prédios, os carros e os outros veículos a moverem-se mas sem que as rodas se mexam, tudo só a avançar, segurado e empurrado e puxado por mãos enormes, por dedos enormes que exercem uma pressão imensa na matéria das coisas. só que as pernas são orgânicas, são alimentadas por abelhas e por líquidos quentes. e por isso seguimo-las. em 1994 é fácil segui-las, é normal e bonito que sigamos a saia com as pernas, o vento de uma ventoínha na ondulação da saia, qualquer dia o sol desliga-se e tudo isto não terá tido qualquer valor, portanto, mais vale estar-se em 1994, seguir pelos cafés, não pensar demasiado no amor e não se ter fome, não se passar pelos momentos chatos em que não há nada para dizer aos outros, encher o tempo e o espaço com aquilo que queremos e caminhar muito, à semelhança de máquinas que nunca param, que foram projectadas só para nunca pararem, com as engrenagens e os mecanismos a apodrecer, é certo, mas nunca o cansaço de se ter músculos, de se funcionar a oxigénio. ter antes abelhas a voar dentro das pernas, a reproduzirem-se eternamente, a morrerem para que outras nasçam das suas carcaças mínimas. porque esta é a maneira de amor de deus.
procuro um caranguejo que se sente na minha cara e me lamba o sexo
(devo despudorar e dizer
"e me lamba a cona", com o efeito de que se perceba, com a maior das clarezas, que sou mulher heterossexual, que tenho útero e vulva e vagina, não recear as palavras e dizer "cona", ter todas as línguas emocionais e intelectuais que me forem permitidas a lamber a "cona", a amar a "cona", mesmo que se trate - e trata-se - de um palavrão.)
um caranguejo que se dê imenso, que me ame com a língua e que me fornique a boca, que me magoe. não tenho forças para acender nenhum candeeiro e começa a ficar noite neste lado do mundo.
tenho fígado e dois ovos no frigorífico. e o fígado é do talho. e os ovos são do supermercado. e o meu corpo é do supermercado mas falta-lhe um amor ou qualquer dádiva (um girassol, porque não?) desse tipo, que o faça iluminar-se desde a boca até à nuca. que o faça rebentar de saliva e de líquidos e de suor e de pálpebras intermitentes, que limpe a casa das teias de aranha e do pó, por uns instantes. que me magoe a boca com o sexo inchado, cadente, incidente, mas, se possível, que não me magoe muito. só um pouco. com o carinho possível e alguma dedicação, para que a minha nuca incandescente possa fabricar e fingir